sexta-feira, 27 de abril de 2007

A minha vida são muitos livros

Quando penso nos livros da minha vida concluo que foram muitos e diversificados no seu conteúdo. Até aos nove anos de idade devorei os infantis, juvenis e alguns tratados de filosofia pelo meio…rsss isto já para não falar da banda desenhada do Major Alvega, o Mandrake e Luís Euripo. Lembro-me que lia a qualquer hora ou lugar. Mais tarde vieram os super-heróis da Marvel, Super-homem, Homem Aranha e seguintes. Passei muita noite a ler e a escrever, na manhã seguinte levantava-me e seguia para a escola como se tivesse dormido. Fui sempre bom aluno (excepto a matemática), se tirasse um catorze ou quinze a Português ou História ficava furioso pois significava que baixara a nota.
Sempre li, escrevi e desenhei muito e os livros contribuíram para o meu desenvolvimento em todos os sentidos. Livros houve que foram mais importantes do que outros visto por certa perspectiva, mas todos eles foram manuais de aprendizagem agora que os vejo à distância. Até mesmo aquela literatura de cordel, os livros de cowboys, as foto novelas da Corin Tellado, tudo isso eu lia, era uma fome ávida por conhecimento.
A minha quarta classe foi feita na Rua das Trinas, Madragoa. Uma escola pública igual a muitas outras mas que tinha uma particularidade: para podermos almoçar tínhamos que pertencer à Mocidade Portuguesa que ficava na Borges Carneiro junto da antiga Emissora Nacional. Na verdade bastante perto da escola. A título de curiosidade recordo-me que foi lá, naquela cantina que conheci o meu primeiro personagem famoso e até tive direito a um autógrafo. Tratou-se do então famoso toureiro José Júlio. Recordo-me porque ele desenhava um touro e assinava por baixo. Mas voltando ao assunto. Ingressado na Mocidade tive direito a frequentar tudo o que de bom aquela instituição tinha para oferecer: várias modalidades desportivas que incluíam o remo e a esgrima, teatro, cerâmica e até (naquele tempo) aeromodelismo. Esta instituição (não obstante ser militarista) possuía instalações e condições que fariam inveja a qualquer colégio privado dos nossos dias, mesmo aos melhores e era pública. Existem certas coisas que a nossa democracia podia ter recuperado pelo menos em prol da cultura. Ingressei no teatro pois sempre gostei de representar. Aí tomei contacto com a Nau Catrineta, Gil Vicente (que adoro) O Auto da Barca do Inferno, peças que representei. Na altura auspiciaram-me uma boa carreira como actor, mas infelizmente eu tinha um lado de mafarrico e raramente resistia a ele. Durante os ensaios da Nau Catrineta nós usámos dois bancos um em cima do outro para simular o mastro do navio e no topo dos bancos estava um colega meu, não resisti, quando ele começou a dizer…”Lá vem a Nau Catrineta que traz muito que contar…” o meu pezinho empurrou os bancos e o pobre estatelou-se no chão enquanto eu gritava – homem ao mar – e esta foi a primeira advertência. Depois veio Gil Vicente, eu era o primeiro cavaleiro e entretinha-me a picar toda a gente com a ponta da espada…rssss segunda advertência. Mais tarde durante uma peça sobre D. Juan, o colega que representava o papel estava em palco junto ao acesso para os bastidores, representava com ambos os braços abertos e mãos abertas viradas com as palmas para cima. Eu olhava para aquilo enquanto de soslaio me apercebi de uma cesta com ovos ali perto (adereço de uma outra peça). Não demorei muito tempo a idealizar uma partida e a pregá-la: peguei num ovo e coloquei-o na mão do pobre colega que representava…rsss ele lá se foi equilibrando com o ovo na mão até ao momento em que tinha que cerrar os punhos e pegar na espada…rssss ainda me rio hoje ao recordar o ovo partido escorrendo pela sua mão abaixo…rssss toda a gente a rir e eu estraguei a minha promissora carreira sendo expulso do teatro, comediante incompreendido foi o que foi. Depois fui para cerâmica e aeromodelismo.
Ainda nessa época através de um familiar fui exposto à religiosidade, sessões de espiritismo e tratamentos com rezas, tinha os meus 10 anos mais ou menos ou onze já não me lembro bem. Sei é que passei por um período que tinha visões e que cheguei a tratar e curar pessoas (não me perguntem como). A verdade é que as pessoas não paravam de me procurar e tudo aquilo me assustou, felizmente mudámos para Cascais e cortei com tudo isso. Mas esta parte da minha vida trouxe ao de cima o meu misticismo e levou-me a ler o Corão e a procurar as doutrinas orientais. Na verdade sou cristão (Não é católico). Na verdade há coisas que não se explicam como por exemplo a minha identificação com aquelas figuras de cavaleiros de túnica branca com uma cruz vermelha. O meu código de conduta muito semelhante ao dos Templários, nada disso me foi ensinado eu sempre fui assim. Mas adiante.
Pouco antes de virmos para Cascais o meu pai, devido a uma injecção estragada, paralisou da cintura para baixo e a minha mãe ficou com o fardo de criar quatro filhos. Ela trabalhava 16h por dia movida a cafés e eu tomava conta dos meus irmãos. Mesmo assim, ainda com 10 anos, numa curta estadia na Colónia Balnear Infantil de O Século fiz a minha primeira letra e música que participou no espectáculo de encerramento da férias e me deu a oportunidade de dar a minha primeira entrevista para um jornal. A letra foi extremamente simples, ainda me lembro dela. Para mim era fácil, ainda é, escrever poesia sempre o fiz desde muito novo. A música ainda é mais fácil: desde pequeno que escuto música na minha cabeça basta-me tirá-la para fora, naquele caso assobiei a música e um jovem que tocava guitarra acompanhou-me.
Durante diferentes períodos da minha vida li e aprendi sobre equitação e cavalos, cinema e Indústria Hoteleira, nesta última tornei-me profissional. No meu percurso laboral que começou cedo fui parar ao programa Ensaio da RTP. As instalações da empresa eram paredes-meias com um jornal de música, O Musicallissimo (Primeira edição de 1970). Neste jornal trabalhava um cantor também jornalista que estava a finalizar um disco: “Até Ao Pescoço” de José Jorge Letria. Fui entrevistado por ele a propósito do filme Help dos Beatles (esta parte a minha amiga Teresa vai gostar…rssss). Foi também a trabalhar para o Ensaio que fui entrevistado pela primeira vez em televisão. Lembro-me que foi relativo a um programa sobre a Biblioteca Condes de Castro Guimarães de Cascais.
No seguimento de tudo isto e como a música fazia parte da minha vida comecei a adquirir livros técnicos sobre música e instrumentos ampliando os meus conhecimentos nesta área. Infelizmente não havia títulos em português e virei-me para a importação. Graças a um professor que tive na terceira classe cedo tomei contacto com a língua inglesa, isto porque ele prometeu ensinar uma canção em inglês no final de cada aula se nos portássemos bem. A primeira canção que aprendi foi “My Bonnie Lies Over The Ocean, ainda hoje a sei de cor. Sempre tive um jeito muito grande para línguas e aprendi inglês com os filmes e com os discos, depois complementei com os livros a parte da escrita. Tudo isto servir-me-ia no futuro para fazer traduções.
Passaram-se alguns anos em que parecia que iria estagnar, mas por volta dos meus 24 anos iniciei uma busca por temas mais técnicos quer em termos de electricidade quer de electrónica e tudo isto relacionado com guitarras. Graças a estes conhecimentos trabalhei numa loja como reparador de instrumentos e dei os meus primeiros passos como construtor. Trabalhei ainda como carpinteiro 2 anos para aprender a conhecer as madeiras e as técnicas, pelo caminho aprendi a fazer móveis e graças aos livros sobre o assunto fiquei a conhecer as árvores e os tipos de madeira para os meus propósitos. Nesta altura eu estava num relacionamento de grande importância para mim e que também me trouxe estabilidade. Durante este período escrevi letras para bandas, algumas tornaram-se músicas e foram editadas em disco. Nesta fase eu vivia com a minha mulher, sogra e cunhado. Éramos uma família unida e feliz. O meu cunhado andava a estudar sistemas digitais no Isel queria ser engenheiro. Éramos como irmãos, o meu cunhado é uma dessas pessoas que consegue juntar a inteligência, a habilidade, o método e a concretização. Juntos partilhávamos a electrónica e a música. Ele bem tentava que eu me interessasse por computadores, mas eu não me entusiasmava muito com as novas tecnologias na época. O meu cunhado entrara para uma empresa subsidiária da Hoechst Portuguesa, na qualidade de técnico de computadores. Eles importavam e comercializavam equipamentos e o meu cunhado era o responsável técnico trazia toneladas de manuais para casa. Ele só tinha um problema: línguas eram o seu pesadelo, não percebia nada. Combinámos então que eu traduziria com a ajuda técnica dele, todos os manuais e informações que ele recebesse, isto sem que ninguém soubesse. Foi assim que aprendi sobre computadores, a mexer-lhes e a repará-los. Não tardou muito que me juntasse ao meu cunhado na dita empresa como técnico. Depois fui chefe de assistência técnica, especialista de produto e gestor comercial. Entre 87 e 1992 estive ligado à informática e ao começo dos telemóveis quer como técnico quer como comercial ou acumulando as duas vertentes.
Em 1992 fundei com um grupo de rapaziada mais jovem os Moloc, toquei com eles até 1994 altura em que integrei o projecto Oceanea do Tó Neto. Foi também durante este ano que descobri a astrologia, quiromancia, esoterismo e a minha aproximação ao estudo dos Templários enquanto ordem e presença em Portugal, Convento de Cristo em Tomar e Castelo de Almourol são território sagrado para mim, lá retempero as minhas forças sempre que posso. Foi ainda neste ano que a São entrou na minha vida e com ela o JL (Jornal de Letras); os pintores e a pintura, novos horizontes literários, temáticos, novos sabores e perfumes, uma cumplicidade que dura até hoje nesta profunda amizade. Em 1998 fomos buscar dois cães, galgos afegãos, uma raça que eu conhecera através da São que teve um que eu conheci e me fez apaixonar pela raça. São os cães mais gatos que conheço e eu adoro felinos. Rapidamente me muni de livros sobre a raça e em breve falava com os especialistas tu cá tu lá. Na verdade aprendi muito sobre os cães em geral. Durante este período ainda dei apoio comercial e marketing a uma loja de importação de instrumentos triplicando as vendas desta em seis meses. Por volta de 1997 ingressei como jornalista e especialista de instrumentos na Revista Promúsica só saí em 2002 altura em que a publicação faliu, já eu era chefe de redacção.
Certos livros ficaram-me no coração como Esteiros de Soaeiro Pereira Gomes, O Princípe de Maquiavel ou Fernão Capelo Gaivota de Richard Bach, mecionar todos levaria mais de 20 páginas.
Existem muitos mais exemplos mas creio que estes são suficientes para passar a mensagem de que: Tudo o que sou o devo aos livros.
Posso não perceber nada sobre um assunto, mas se existir um livro sobre isso eu torno-me perito.
O que seria a minha vida sem os livros? Quando ela própria é um imenso livro de muitos capítulos escritos, alguns inacabados e muitos outros por escrever.

9 comentários:

kuska disse...

olá self made man!

como sabes, na maior parte das vezes sou muito parca em palavras. não consigo fazer grandes discursos ou alongadas dissertações.. mas não sou forreta nos sentimentos nem nas emoções!

agora que já falei de mim, quero dizer que apesar de conhecer bem uma parte do teu "percurso literário", tenho novamente a sensação de estar perante alguém que consegue fazer qualquer coisa que queira, que necessite, que imagine, mas principalmente que a motive.

finalmente discordo de ti quando afirmas que tudo o que és, o deves aos livros da tua vida.
na minha opinião tudo o que tu és deves a ti próprio e à forma como procuraste as fontes que te permitiram ir traçando o rumo da tua vida.
(no fundo tu sabes isso!)


Xi + xxxx

kuska disse...

errata - onde se lê: Olá self made man!, deverá ler-se: Olá bookself read man!

(nota da autora)

Afgane disse...

Pois é Kuskinha tu melhor do que ninguém conheces-me bem...rsss na verdade o meu eterno problema é a motivação tenho que asentir para o motor engrenar, depois o resto é fácil. Outras vezes devido a ter estas capacidades mexo em muitos burros ao mesmo tempo e disperso-me, mas cada um é como é. Seja como for, não sei como nem quando, mas sei que vou alcançar os meus sonhos a meta que quero atingir, para mim e para aqueles que amo sem os quais nada do que eu sou ou faça terá qualquer sentido.
Beijinhos

Teresa disse...

Acho que somos os três pessoas de livros, de muitos livros, isso já ficou claramente demonstrado. Cada um terá os seus, mas o lugar deles na nossa vida é enorme.

Um beijo.

Afgane disse...

Querida Teresa,
O que diz é bem verdade, somos pessoas de livros e dificilmente víveríamos sem eles.
beijos

Teresa Pico disse...

PELA PRIMEIRA VEZ FUI DAR UMA OLHADINHA AO BLOG
PARABENS
ESTA GIRO SAUDAVEL
E ACTUAL
BEIJO
TERESA PICO

Afgane disse...

Obrigado pelo comentário Teresa e apareça sempre que será um prazer recebê-la
beijos

kuska disse...

bom domingo aos bloguistas!

ainda bem que há livros, música, pintura, etc,etc,etc...

mas na raíz de tudo isto está o ser humano imperfeito.

quem sabe a busca da perfeição o leva a escrever, compor, pintar, etc,etc,etc...?

Não adianta, precisamos de tudo, parafraseando Rita Lee - é do balacobaco!

xxx

Afgane disse...

Mas que inspirada que a menina está Kuska, apesar disso concordo com o que dizes. Não sei para que nos serve, por vezes tudo isso, mas que dá cor e sentido nas nossas vidas isso dá
Beijos