sexta-feira, 11 de maio de 2007

As estradas do meu caminho

Todos temos várias opções na vida e na maior parte das vezes, nem sabemos porque escolhemos umas em detrimento das outras. Escolhemos as que nos parecem mais certas, mesmo que depois se venham a revelar erradas. Mas também não é menos verdade afirmar que é das coisas certas e das menos certas (odeio dizer erradas) que trilhamos o nosso caminho e fabricamos o nosso destino. Pela parte que me toca fiz muitas escolhas, passei por muitas áreas diferentes, umas vezes por opção natural, outras vezes empurrado pelas circunstâncias (engravidar alguém é uma circunstância não é?). A verdade é que me casei com 24 anos (separei-me aos 25 uma boa média), era novo, mas responsável. Em breve nasceria o meu filho, hoje tem precisamente a idade que eu tinha quando casei com a mãe dele. Bem, tudo isto para explicar que por sugestão do meu sogro eu fui trabalhar para a empresa dele, área das obras públicas, mais concretamente construção e recuperação de estradas. Imaginem bem um jovem músico e que trabalhara também na Indústria Hoteleira (mãos de luva) passar para o balde de massa e para a pá e picareta.
Os meus cunhados apesar de até simpatizarem comigo (simpatizavam menos com a irmã), achavam que eu, um menino de bem, não aguentaria o esforço e a dureza das obras e em menos de um mês fugiria a sete pés. Enganaram-se! Confesso que não foi fácil, passei um mau bocado e sofri bastante no começo, mas com o tempo adaptei-me e é bem verdade que o corpo humano resiste mais do que possamos pensar. Foram seis meses a dar serventia a pedreiros em que aprendi muita coisa nova e me inseri num mundo de homens duros e cépticos a muitas das coisas que para mim eram certas. Imaginem que alguns deles achavam que o homem ter estado na Lua era falso. Argumentavam eles que se havia filmes de naves e cenas do espaço sem essas coisas existirem aquilo da ida à Lua tinha sido filmado da mesma forma. Argumentar o quê!?
Há época eu era muito magro, esquelético até se quiserem e por isso mesmo ganhei a alcunha do “Meia Pele”, nome pelo qual sou conhecido entre eles até hoje, pelo menos dos que ainda lá trabalham e assim se referem a mim quando o meu filho aparece por lá. Homens duros mas sãos de espírito, alguma malícia sim, mas maldade não lha encontrei. Neste tempo passei alguns dos dias mais felizes da minha vida em termos laborais. Trabalhava ao ar livre, sentia-me vivo, em forma, bronzeava-me cedo nos três anos que lá passei, os meus cabelos nas pontas ficavam louros queimados pelo Sol. Sentia-me saudável e isso fazia-me andar alegre e feliz… na verdade sinto saudades desses tempos tão distantes, mas pela memória tão perto.
Passados seis meses na serventia e uma vez que resistira, os meus cunhados enviaram-me para aprender a operar com máquinas, os Dumper, uns tractores engraçados que servem para carregar materiais e são um pouco complicados de conduzir – quando viramos o volante para a esquerda o Dumper vira para o lado direito e vice-versa. Querer endireitar um veículo destes em andamento depois de perdermos a noção do equilíbrio e direcção é obra, que o diga o poste de iluminação em que acertei da primeira vez. Depois dos Dumper seguiram-se as Retro escavadoras e a espalhadora de alcatrão. Foi um percurso interessante por uma área diferente de todas as que experimentei na minha vida e dessa passagem ficaram algumas histórias como as que aqui deixo.

Ser doido ajuda!
Pouco tempo depois de ter andado a aprender a ser maquinista (trabalhar com retro escavadoras) fui deixado sozinho no meu primeiro trabalho. Esclareço que aprender significou estar sentado ao lado de um operador a olhar para o que ele fazia, uma semana e estava feito um novo maquinista. Olhei para a máquina e pareceu-me enorme, mas eu gosto de coisas novas e por se tratar de uma coisa com motor e rodas era meio caminho andado para me sentir em casa, isto aliado ao factor risco eram um convite demasiado apelativo para que eu recusasse.
No meu baptismo como maquinista foi-me destinado abrir uma vala ao longo de vários metros na beira da estrada. A máquina posicionava-se sobre o trajecto, aquele enorme braço hidráulico existente na parte traseira da máquina escava em quanto a estrutura da máquina assenta em duas colunas igualmente hidráulicas que servem de sapatas mantendo-a estável. Eu disse estável? Experimentem trabalhar com uma e saberão que naquelas máquinas a palavra estabilidade é um conceito relativo. Saltos, deslizes laterais e solavancos de toda a espécie são o pão-nosso de cada dia neste trabalho. Saltei da máquina e fui ter com o meu instrutor reclamando de tudo isso e perguntando se estaria a fazer tudo certo. A resposta dele foi – meu amigo para trabalhar com máquinas tem que ser-se doido ou nem lhes pegamos. Aquilo para mim foi a gota de água, um desafio? Ele não me conhece, dizer-me uma coisa daquelas é o mesmo que acender o rastilho a um barril de pólvora. Não demorou muito tempo em me tornar o mais doido maquinista da empresa: desde entrar por buracos a dentro, fazer cavalinhos com a máquina, subir o braço traseiro a 4 metros de altura e dançar com a máquina lá no alto no mais completo risco fiz de tudo. Isto desnecessariamente pois trabalhar com estes brinquedos já contém risco mais do que suficiente, as pessoas nem imaginam. Tive muitas situações difíceis, aquelas em que julgamos não escapar e mentalmente rezarmos a última oração enquanto de forma puramente mecânica efectuamos todas as operações para nos livrarmos. Mas apesar do risco também temos situações caricatas como esta que relato de seguida.
Um dia estávamos nós nuns terrenos a desbravar caminho para fazer uma estrada e foi necessário carregar umas pilhas de toros de madeira num dos camiões. O dia apresentava-se chuvoso e não tardou que caísse aquela chuva miudinha que chamamos de molha-tolos, eram umas 9h da manhã. Chovera a noite toda, o piso estava lamacento e a máquina rodava com alguma dificuldade. Os meus colegas em pé iam carregando os toros no balde da frente da máquina e depois eu despejava tudo na caixa de carga do camião. Repetimos a operação vezes sem conta até o camião estar completo. Olhando em volta verificámos que bastava mais duas cargas e não restaria madeira nenhuma ficando o trabalho concluído, o pior é que não havia mais espaço no camião. Aí tivemos uma brilhante ideia: com uns paus entalados na parte lateral dos taipais do camião e apontando para o céu (fueiros assim se chamam na Beira Baixa), poderíamos carregar o resto. Esquecemos um pequeno detalhe, quando eu elevasse o balde da máquina aquela altura, este nunca poderia estar cheio pois a carga de cima cairia projectada na minha direcção e foi o que aconteceu: perante o espanto, gritos de aviso – foge! Foge que morres. Cobri a cabeça com o braço enquanto os toros de madeira caiam com um ruído surdo por todos os lados à minha volta, milagrosamente não me tocando mas amachucando a chapa da máquina, eu não podia fugir nem deter aquela massa de madeira encharcada que me caía em cima vinda de todos os lados. No final escapei sem um único arranhão e rindo à gargalhada, coisa que fiz durante todo o desenrolar da situação.

Sob os pés…nada!
Quando não havia serviço para a máquina eu por vezes acompanhava os motoristas aos locais de descarga e voltava com eles. Naquele dia de intensa chuva foi a minha opção para não ficar ali à espera. Fomos descarregar umas coisas à Pedreira. A Pedreira consistia num fosso enorme com um diâmetro de mais de um quilómetro de onde se extraía a pedra à custa de explosões. Do centro do buraco subia uma estrada que no topo ficava a setenta metros de altura, foi por ela que subimos quando terminámos de descarregar. Já lá no alto eu apercebi-me que o potente camião se movia mas não saíamos do mesmo lugar e comentei isso com o motorista. Aí ele pediu-me que abrisse a porta do meu lado, saísse e verificasse se as rodas estavam atascadas impedindo o veículo de se mover. Normalmente eu abria a porta, apoiava uma mão na porta e outra no assento e saltava directo para o chão sem tocar nos estribos, felizmente naquele dia, nem sei porquê, não fiz isso, se fizesse teria voado setenta metros e não estaria agora a contar a história. Todo o meu lado se encontrava suspenso no ar sobre o enorme buraco da pedreira, por milagre ainda não tínhamos caído. COM muita calma fui deslizando sobre o banco até ao lado do condutor, ambos descemos muito lentamente para o estribo e saltámos para a estrada. Como o camião não caiu, fomos buscar duas máquinas de lagartas e voltámos a colocar o camião em segurança. Foi apenas mais um susto num qualquer dia de trabalho.
Fiz muitas mais coisas naquela época, aprendi a trabalhar com explosivos, a espalhar alcatrão para fazer aqueles tapetes em que rodam os nossos carros, aprendi que se pode andar feliz no trabalho não obstante a dureza do mesmo e aprendi que a pessoas são maravilhosas na sua diversidade: o que é mera banalidade num qualquer escritório pode ser difícil de acreditar para quem trabalha nas obras e o contrário também se verifica. Moral da história: será que os homens foram mesmo há Lua ou não passou tudo de um bem feito filme de efeitos especiais? Se alguém souber a verdade diga-me.



CARTOON

Tal como prometi um cartoon por post

15 comentários:

Ana disse...

Ainda bem que se vai passando de uns blogs para outros e vamos descobrindo pérolas destas!
Belo texto! Grande poder de descrição! Fiquei com a sensação de que estava mesmo a presenciar esses momentos.
Gostei!:) E vou voltar sempre!

Beijinhos

Diabba disse...

Vou começar por confessar (coisa k só me fica mal, mas enfim...) que tenho aqui vindo mas perco a coragem de te ler ao ver "postes" tão extensos.
Mas agoras, cheia de coragem fui-me ao poste das obras e, não é que me entusiasmei?
Trabalhar ao ar livre é o meu sonho, eu devia era ser jardineira!! Afinal até tenho "mão verde", grunfff começo a ficar muitoooooooooooo cheia de papeis, grrrr
Aprendeste a trabalhar com explosivos??
Não serás tu um terrosrista disfarçado de musico?? hum???
hihihihihihi

beijo d'enxofre

P.S. e não, não acredito que tenham ido à Lua, mas isso é uma discussão para um dia destes, se calhar ainda faço um "poste"

Diabba disse...

agoras? que vergonha, só falta eu começar a dizer (e a escrever) "prontos"... grunffff

terrosrista? ok, esta foi gralha! (a outra tb, mas não parece)

beijo enxofrado

Afgane disse...

Querida Ana,
Muito obrigado pela visita, volte sempre que é um prazer. Agradeço de todo o coração os seus elogios à minha escrita e fico feliz por conseguir transmitir as sensações de momentos que vivi, é esse o objectivo da minha escrita e por isso dou tanta importância aos detalhes. A vida é feita de todos os pequenos nadas que significam muito.
Beijos

Afgane disse...

Diaba saudações da fornalha,
Ainda bem que conseguiste ler o post todo sem desmaiar de tédio (eu escrevo do tipo sonorífero). Quando começo a escrever nunca mais paro tntos são os pormenores que acrescento na tentativa que se perceba cada minuto do que vivi ou dos locais visados. Vou tentar sintetizar no futuro.
Quanto ao terrorista sou em circuito fechado volta não volta armo a bom e detono a minha vida. É cada explosão que até fico zonzo (não confundir com Gonzo que esse só canta).
Mas agardeço-te o esforço para ler todo o post he! He!
Agoar vou cuscar o teu Inferno.
Beijos

kuska disse...

oi!
máquinas e alcatrão não rimam com beleza e nunca seriam um tema que alguma vez me despertasse o interesse - puro preconceito de que me redimo ao ler este teu post.

conseguiste transmitir com rigor a dureza que foi essa experiência de trabalho e simultâneamente tornar a leitura leve e divertida.

sem querer e sem custo aprendi algumas coisas que desconhecia e pincipalmente consegui entender o lado prazeiroso que os operários podem ter e que tu contas com bastante sensibilidade e humor.

adorei a música que escolheste para acompanhar os trabalhos das obras!

o cartoon: depois de uma jorna duríssima, finalmente alguém consegue descansar OS OUVIDOS!!!!

dumpers de beijinhos xxxx

Afgane disse...

Querida Kuska,
Muito obrigado pelo comentário elogioso, olha para mim babado até aos tornozelos. Dizes que aprendeste algumas coisas, se quiseres trabalhar nas obras avisa, sempre se arranja uns consertos para fazer cá em casa. Esta música, Diary Of A Working Man, é uma das minhas favoritas e é do grupo Blackfoot todo formado por indios Norte Americanos da tribo dos pés negros (Deus esqueceu-se de lhes pintar o resto). Quanto ao cartoon ando a esmerar-me.
Beijos

Van Dog disse...

Adoooro cartoons com cães! Então quando estamos num sofá...

Afgane disse...

Caro Van Dog
A cada novo post haverá um novo cartoon Afgholic Rock e a estrela como não podia deixar de ser é o cão, o músico é só para colorir o ambiente não sei desenhar candeeiros he he he
Abraço

Teresa disse...

ADOREI a música, que não conhecia, e que tão bem escolhida foi para ilustrar o texto.

Texto que me fez lembrar uma cena extraordinária de um dos filmes da minha vida, o Shawshank Redemption: a cena do trabalho no terraço, com a narração tão poética na extraordinária voz do Morgan Freeman.

Quanto à ida do homem à Lua, continuo a acreditar, claro. Teriam de dar-me provas inequívocas de que se tratou de um embuste. E quem, em seu perfeito juízo, ousaria montar tamanha fraude?

Afgane disse...

Querida Teresa,
Eu também vi o filme e adorei, aliás adoro Morgan Freedman e já me habituei a que quase todos os filmes em que ele entra serem bons, dá a sensação que ele escolhe bem os argumentos em que participa ou então ele transforma esses argumentos em peças de qualidade.
Sobre a músca do meu post é uma das minhas favoritas, pela música, pela história, é Southern Rock.
Agora quero redimir-me do que disse no blog da Diabba em tom de brincadeira. Eu fui um dos garotos que vi o homem a pousar na Lua, vi e emocionei-me, apesar de ser criança sempre fui muito sensível e acredito que existe vida no universo para além de nós. Aquele passo poderia significar encontrar esses seres dos discos voadores, pensava eu naquela altura, influência da banda desenhada creio. Existem muitas contradições sobre aquele vídeo, tal como existem muitas contradições em todos os textos religiosos, mas a verdade é que ou se acredita ou não. A fé em qualquer coisa nasce dentro de nós e não se questiona sente-se. A tecnologia avançou muito e quam sabe até onde chegaremos? Até prova em contrário acredito no que vi, mesmo que subsistam algumas dúvidas. Quando disse que os americanos estragam tudo por onde passam, deveria ter escrito o lado negro da política Norte Americana e de pessoas com ânsia do poder, óbviamente não são todos os americanos entre os quais tenho grandes amigos que são pessoas maravilhosas. Tal como a Teresa disse é uma nação capaz do melhor e do pior.
Beijinhos

Teresa disse...

Duas questões, querido António:

1. Morgan Freeman - julgo que ele e o Anthony Hopkins (Sir) devem ser neste momento os actores mais amados e admirados do mundo - não estou a falar de estrelas, obviamente, isso é outra categoria. Há um programa que adoro, o extraordinário Inside the Actor's Studio, pena é que os creditos do Biography Channel o passem dobrado e não legendado, como devia ser. Quando foi ele o entrevistado, só queria que visse. A assitência inteira de pé, num aplauso interminável a durar uma eternidade. Aplauso igualmente interminável quando o James Lipton mencionou o Shawshank Redemption - experimente espreitar a Amazon americana e o número inacreditável de críticas que o filme tem. Todas a pô-lo nos píncaros...

2 - A ida à Lua - afinal concordamos mais do que parecia ao princípio. Para não tornar a conversa fastidiosa, espreite o meu comentário mais recente na nossa querida Diabba (muito gosto eu daquela rapariga!), que será o último, pois da minha parte encerra o assunto. Respeito imensamente as opiniões alheias, defenderei sempre as minhas. Fundamentos científicos não tenho, evidentemente, mas também não se trata de uma questão de fé - para mim é uma questão de bom-senso.

3 - Alcatrão... Porque será que a mera menção desse nome me remete de imediato para pezinhos moles montados à força num carril com alcatrão e penas?...

Um beijo e bom domingo.

P.S. Estou sem Limewire. Importa-se de me mandar o Diary of a Working Man. É que adorei mesmo o raio da música!

Afgane disse...

Querida Teresa,
Ok tudo esclarecido sobre a ida à Lua, avancemos. Essa dos pézinhos moles montados num carril com alcatrão e penas remete-me para os incríveis manos Dalton com o seu Rantanplan olhando e comentando: não sei porque gosto deles!
Quanto à música segue em seguida.
Beijos e um bom domingo também

marla disse...

quero lá saber se o homem pôs os pés na lua, importa-me sim quando ele anda com a cabeça na lua..

e a terra aqui tão perto!

slap's

Teresa disse...

Claro, bingo! A referência do alcatrão era precisamente essa!

Muito brigada pela música, que já recebi. Desinstalei temporariamente o Limewire, ando com muitos problemas no pc e ele estava a torná-lo AINDA mais lento.